ARMAR A GUARDA É SOLUÇÃO DE SEGURANÇA OU REPRODUÇÃO DE PARADIGMAS AUTORITÁRIOS ?
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Armar a Guarda é solução de segurança ou reprodução de paradigmas autoritários?
A formação focada no “como atirar” e não no “porquê” ou “em quem se atira” pode reproduzir velhos vícios
- Recife (PE)
- Eduardo Nunes

Eduardo Nunes é historiador, militante pelos direitos humanos e integra o diretório municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) no Recife
No último dia 19 de janeiro, a Guarda Civil Municipal do Recife (GCMR) deu um passo histórico (e polêmico): iniciou o treinamento da primeira turma para o uso de armamento letal. Com a previsão de agentes armados nas ruas já em março, Recife deixa de ser a última capital do Nordeste a resistir a essa tendência. Entretanto, diante da complexidade da segurança pública brasileira, a pergunta que urge não é se a guarda deve portar armas, mas sob qual paradigma ela irá dispará-las.
A integração das guardas ao Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), reforçada pela PEC 18/25 e por decisões recentes do STF, é um caminho jurídico consolidado. O município é, de fato, o território onde a vida acontece e onde a prevenção deve ser prioridade. Contudo, o risco reside em acreditar que a segurança urbana se resolve apenas com a transferência de tecnologias de força.
Os municípios têm um papel estratégico e específico de contribuição na segurança pública para além do policiamento. O desenvolvimento de políticas públicas integradas e governança participativa entre atores públicos e sociedade civil são peças chave para superação de tendências falaciosas e simplistas de que o debate e a garantia de provimento de segurança sejam de exclusividade relacionada apenas às polícias, sobretudo, quando os números apontam para uma seletividade da violência de Estado.
Apesar da forte tendência pelo armamento e uma pressão vinda de setores conservadores que essencialmente distorcem o debate sobre políticas municipais de segurança, vitaminados por pesquisas recentes que apontam o setor como a maior preocupação da população que vive nas grandes cidades, é importante questionar se armamento letal, embora apresentado como “gradual e responsável”, está acompanhado de uma mudança real de paradigma de atuação.
Trocando em miúdos, a transição para o armamento pode reforçar o modelo de “segurança pública” tradicional e repressiva em detrimento da segurança cidadã. Recife é uma cidade pioneira na contribuição de políticas de segurança com cidadania. A transição não acompanhada de uma profunda mudança na educação e na cultura institucional das Guardas gera o risco da seletividade da reprodução da violência estatal.
O treinamento atual parece focar em 100 horas-aula de “domínio técnico e manuseio seguro” — percebemos o que o educador Paulo Freire classificou como uma abordagem tecnicista. Esse modelo prioriza a mecânica da ação em detrimento do julgamento ético e da sensibilidade social. Em uma cidade marcada por desigualdades profundas, uma formação que foca no “como atirar” e negligencia o “porquê e em quem se atira” tende a reproduzir velhos vícios de letalidade.
Os números não nos permitem o luxo da ingenuidade. Segundo o relatório Pele Alvo: Crônicas de Dor e Luta (2025), da Rede de Observatórios da Segurança, 92,6% das mortes em decorrência de intervenção policial em Pernambuco são de pessoas negras. A taxa de negros mortos é cinco vezes superior à de brancos. Somado a isso, o Instituto Fogo Cruzado aponta que o Recife encabeçou o mapa da violência armada em dezembro de 2025, com vítimas cada vez mais jovens.
Nesse cenário, armar a guarda sem uma reforma profunda na sua matriz educacional pode ser apenas o acréscimo de mais um elemento de letalidade em territórios já conflagrados. A Segurança Cidadã, paradigma que o Recife afirma adotar através de equipamentos como o Compaz, pressupõe que a força é o último recurso, sendo a mediação o primeiro.
Para que o armamento da GCMR seja, de fato, “gradual e responsável”, a gestão municipal precisa ir além do estande de tiro. É necessário implementar um controle social rigoroso, com corregedoria e ouvidoria autônomas, monitoramento integral por câmeras corporais e, acima de tudo, uma formação contínua que discuta racismo institucional e direitos humanos.
A segurança do recifense não será garantida apenas pelo peso do metal na cintura dos agentes, mas pela capacidade da instituição em se manter civil e comunitária. Se o foco permanecer apenas no gatilho, estaremos apenas recauchutando um modelo de segurança que, historicamente, já provou que falhou.

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Obrigado leitor/leitora pelo carinho . São pessoas assim como você que nos inspiram a escrever. Aguardo você na próxima edição. Abraços Paulo Márcio Monte